by armatos | Jan 25, 2018 | Educação, Museus, Opinião
No fim de semana passado tive um inesperado, mas muito bom, pedido da minha filha mais nova. Queria ir ao museu, a um museu! Sem que tivesse saído da nossa cabeça qualquer sugestão! Excelente, não é? Ora como um pedido destes não se recusa, toca de escolher o museu para pegar na criançada e passar um bom tempo de qualidade com eles!
A escolha recaiu no Museu Nacional Soares dos Reis. Já todos lá fomos (e temos muitos por perto que eles não conhecem), mas estava de olho na exposição “José de Almada Negreiros: desenho em movimento” e, além disso, estes hábitos de repetição de museus são bons para a criançada. Ficam mais próximos com toda a certeza! Vou contar-vos a experiência em três actos: antes, durante e depois!
O antes
A ida ao MNSR foi decidida com uma consulta na web (onde vi a informação sobre a exposição), mas se não fosse o Facebook do MNSR e a informação da Gulbenkian, não tinha encontrado nada no site do Museu (onde aliás fui direccionado para o FB do mesmo). Em todo o caso, várias notícias falavam sobre a exposição na breve pesquisa que fiz. Apenas deixo esta nota, porque vejo que o site precisa de acompanhar o enorme esforço de comunicação que o museu faz.
Decidido o museu, caminho percorrido de carro, ultrapassadas as dificuldades de estacionamento naquela zona da cidade (mesmo ao domingo é um castigo) com o recurso a um parque pago, somos confrontados com um problema crónico para o MNSR, a “praça” em frente ao museu é tudo menos amigável para quem ali chega! Se bem se recordam, a intervenção feita ali, com a saída do túnel de Ceuta, causou polémica na altura e foi mesmo embargada pela Ministra da Cultura, no entanto, e como bem recordava a Maria João Vasconcelos, já em 2013, o túnel é um perigo para os visitantes e para a colecção do museu. Em tempos de saída da crise seria bom pensar em minimizar aquele problema, pelo menos!
O durante
Entrados no museu (a criançada não pagou) e café tomado na cafetaria, seguimos mais ou menos apressados pela exposição permanente (o acesso às temporárias é sempre feito por aí), parando em algumas obras que despertaram o interesse aos mais novos, até que chegamos à galeria de exposições temporárias.

Visita ao MNSR
Eu desci as escadas, mas eles seguiram, como seria de esperar, pela rampa de acesso em correria desenfreada (nada como uma rampa para lhes despertar a vontade). Vai daí, pai em alerta e o pessoal do museu, alertado pelo barulho da correria, a ver discretamente o que vinha por ali. Um ponto a favor do MNSR nesta situação. Atentos, mas sem qualquer chamada de atenção à criançada, porque perceberam a atenção dos pais e o local onde estavam a brincar (a rampa não tinha qualquer obra exposta).
Mais do que a minha opinião sobre a exposição (bastante positiva, devo dizer), queria aqui deixar-vos a deles. Interessados nos desenhos do Almada, atentos a diferentes pormenores das obras (a museografia permitia que as apreciassem, embora com alguma dificuldade para as obras em vitrines horizontais), interessados na técnica de desenho (principalmente o mais velho), nas formas geométricas, nas histórias contadas pelo Almada, entre outros aspectos, acabaram a visita a dizer que tinham gostado muito da ida ao museu. Estiveram com a mãe sentados durante um bom tempo a ouvir a gravação da Gulbenkian de uma obra escrita por um artista que não me recordo agora, ilustrada por Almada na sua passagem por Madrid (se não estou enganado) e cujas ilustrações estavam a ser projectadas em frente! Divertidos com a bruxa e o gato.
Saídos da exposição do Almada, tivemos ainda tempo para percorrer as restantes salas do MNSR vagarosamente, procurando algumas histórias na excelente colecção do museu, inventando outras, esperando que a curiosidade seja sempre uma das suas qualidades mais preciosas e apreciadas. A mãe documentou dois olhares deles que ilustram isso e deixo-os aqui para memória futura.
À saída e em resposta à questão: Então, gostaram? Tivemos um “Sim… gostamos muito!” Sincero que a criançada não mente!
O depois
Não fosse o pedido da princesa lá de casa, teria passado umas boas horas de brincadeira caseira com eles, mas entre isso e umas boas horas de brincadeira e aprendizagem no museu (ou outro sítio interessante), tenho cada vez mais certeza, teremos que escolher sempre a segunda. Mesmo que o conforto da nossa casa, o chamamento do sofá, nos tente de forma diabólica a passar a tarde de domingo chuvosa em casa, temos que nos lembrar sempre que sair, conhecer outros locais, ver obras de arte, questionar, suscitar a curiosidade, etc.
Este passeio valeu aos pais um obrigado após a visita, mas, em boa verdade, quem lhes devia agradecer era eu.
by armatos | Jan 11, 2018 | Divulgação, Exposições
Ontem visitei, por motivos profissionais, o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra e tive a oportunidade de visitar a exposição temporária “Visto De Coimbra – Os Jesuítas entre Portugal e o Mundo” que foca a atenção na actuação da Companhia de Jesus aproveitando o impacto mediático do recente filme de Scorcese, a visita a Portugal do Papa Francisco (um jesuíta, portanto) e as recentes, e muito interessantes, descobertas de documentação feitas na Sé Nova de Coimbra. Fui convidado e acompanhado na visita pelo Pedro Casaleiro, da direcção do Museu, e membro da equipa que produziu esta exposição, que noutra oportunidade já me tinha falado sobre a investigação e trabalho que estava a ser realizado para esta exposição.
Antes de vos falar sobre a exposição, devo dizer-vos que sou um apaixonado pela relação que a Companhia de Jesus, com os seus erros e méritos, tem com o mundo. Sabemos todos que vários abusos foram justificados pela catequização dos povos e pelo disseminação da fé católica e, a luz dos nossos dias, nada o pode justificar. No entanto, a Companhia de Jesus deixa-nos, ao longo dos séculos um legado extraordinário de descobertas, de ligação entre povos, de dados ciêntificos, de conhecimento que muito contribuiram para o desenvolvimento da sociedade.

Lua da autoria do padre Cristovão Borri (Coimbra, 1626)
É o que acontece exactamente com o objecto que dá o mote ao título da exposição. Uma gravura publicada na Colecta Astronomica (1629), da autoria do padre Cristovão Borri, representando a Lua vista de Coimbra e feita em 1626. A primeira ilustração científica na área da astronomia feita em Portugal, apenas precedida da de Galileu (Siderius Nuncius) feita 16 anos antes. Um documento que mostra o empenho da Companhia num projecto pedagógico global e centrado na divulgação de estudos científicos recentes, como podemos ler na apresentação da exposição na página do Museu da Ciência.
A exposição tem duas áreas distintas que abordam a história da Companhia de Jesus em Coimbra e as missões jesuítas no mundo. A história em Coimbra é fascinante e aborda de forma muito interessante o contributo da Companhia no ensino em Portugal até à sua expulsão pelo Marquês de Pombal. Uso para ilustração desta parte da exposição um excerto do texto sobre a exposição que mencionei acima:
Na primeira sala encontramos manuais do curso filosófico – os Conimbricenses, o livro de Álgebra (1567) de Pedro Nunes seguido pelo jesuíta matemático Clavius, um dos maiores responsáveis pela difusão da obra de Nunes na Europa, as peças de teatro das tragédias sacras acompanhadas de coros musicais encenadas pela primeira vez em Coimbra (1562), expressas em manuscritos originais do acervo da Biblioteca, entre outros
Na sala dedicada às missões jesuítas, centrada, como se compreende, na actuação da província portuguesa da Companhia, não consegui ficar indiferente, tendo em conta o tempo em que ocorreram (entre 1550 e 1650), às distâncias e lugares cobertos pelos missionários que saíam de Portugal e viajavam em condições difíceis de imaginar actualmente, literalmente até ao outro lado do mundo. A mancha que representa a província portuguesa no planisfério de Ortelius (1570) é reveladora da imensidão de mundo coberto nesta verdadeira globalização empreendida pelos jesuítas missionários.
De todos os objectos que tive a oportunidade de ver, gostava de vos referir um. Uma gramática da língua Cokwe (como falo sem notas, espero não estar enganado com a etnia) feita por um missionário que possibilitava depois, para cumprir com o designío de espalhar a fé cristã, a criação de catequismo na língua daquele povo. A mesma situação encontramos também para a língua geral usada no Brasil, o tupi.
Além destes, gostei também dos documentos encontrados dentro de um altar da Sé Nova, ali guardados a mando de um jesuíta após a extinção da ordem em Portugal, como forma de garantir a sua preservação e segurança face à certa destruição numa fogueira às ordens do Marquês. Nesses documentos, pelo que me disse o Pedro Casaleiro encontram-se verdadeiras raridades que estão a ser estudadas por diversos especialistas da Universidade.
Esta exposição temporária poderia muito bem ser um dos elementos a incluir na (desejada) ampliação do Museu da Ciência conimbricense. Introduzia-nos a história do desenvolvimento de uma das mais antigas universidades europeias e permitia explorar temas muito interessantes sobre a relação da fé com a ciência ao longo do tempo. Além disso, mostra-nos de forma inequívoca uma relação aberta entre Portugal e o Mundo apoiada no conhecimento ciêntifico e na presença em Coimbra de relevantes cientistas ao longo da existência da Universidade.
No decorrer da visita, lembrei-me de como as Universidades poderiam olhar para a sua própria história quando procuram ideias para se desenvolver. Esta relação com o mundo, com os melhores, é central neste ponto, não vos parece?
Não posso deixar de agradecer ao Pedro Casaleiro esta excelente oportunidade de visita e todas as informações que me deu sobre os objectos e a história que a exposição conta. Não posso também deixar de vos recomendar uma visita ao Museu da Ciência para que vejam a exposição “Visto de Coimbra – Os Jesuítas entre Portugal e o Mundo”.
Não se esqueçam que só está disponível até 18 de Março próximo.
by armatos | Dez 22, 2017 | 2017
Desejo a todos os meus amigos e leitores os votos de um Excelente Natal, cheio de saúde, paz e felicidade e um próspero Ano Novo com renovada energia e muito sucesso para as vossas iniciativas.

late 1550s, reworked 1570s
Jacopo Tintoretto (Jacopo Robusti) (Italian (Venetian), about 1518–1594)
Coleção do Museum of Fine Arts – Boston
by armatos | Nov 16, 2017 | Documentação, Exposições, Investigação
Os museus têm feito, ao longo das últimas décadas, um esforço considerável no estudo, documentação e digitalização das suas colecções para poderem, de forma mais eficiente, responder às necessidades colocadas pela introdução das tecnologias nas diversas frentes de trabalho que estas instituições assumem. Pese embora seja uma tarefa gigantesca para os museus (com os recursos que têm), ela nunca poderá estar completa sem um processo de investigação e documentação das exposições que cada museu organizou ou onde esteve representado por um (ou mais) objectos do seu acervo.
Acredito que tal afirmação será consensual entre os meus caros amigos, mas em boa verdade quantos museus conhecem que têm as exposições que produziram (já nem falo nas em que participaram de alguma forma) documentadas? E acreditando que conhecem algum, quantos desses museus têm a informação sobre essas exposições publicada ou disponível numa forma estruturada que permita uma investigação científica sobre as mesmas?
Eu sei que é difícil encontrar, mas se tiverem eu sou o primeiro interessado a conhecer esse trabalho e a metodologia que seguiram para documentar as exposições e partilhar alguma da experiência que vou construíndo do acompanhamento que faço de alguns projectos semelhantes.
Serve esta introdução para vos falar sobre um projecto que tenho vindo a acompanhar através da Sistemas do Futuro e que me tem dado suscitado questões interessantes sobre este tema: o Catálogo Digital da História das Exposições de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian.
A própria FCG apresenta este projecto da seguinte forma na página acima:
As exposições da Fundação Calouste Gulbenkian têm constituído uma das vertentes de maior impacto da sua atividade junto do público. De facto, elas expressam as políticas de acompanhamento da arte contemporânea e de salvaguarda do património empreendidas pela Fundação, e asseguram a divulgação da arte internacional, de diversas geografias e cronologias, no nosso país.
O projeto História das Exposições de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian – Catálogo Digital é um projeto transversal que tem como principais objetivos a eficaz projeção internacional da memória expositiva da Fundação e a participação no amplo debate internacional que decorre na área da História das Exposições, disciplina emergente da História da Arte e dos Estudos dos Museus.

Transporte de obras no âmbito da exposição itinerante Art Portugais du Naturalisme à nos Jours (Bruxelas, 1967; Madrid e Paris, 1968 ), na sua apresentação em Bruxelas. © Arquivos Gulbenkian
O projecto é fruto de uma necessidade que a FCG sentiu de contar a sua história expositiva e, através dela, pesquisar sobre os diversos contributos daí gerados para diferentes áreas. Uma ideia excelente dado o papel relevante que a fundação teve e tem no panorama das artes nacional e internacional e que é ainda melhorada pelo estabelecimento de uma parceria científica com o Instituto de História da Arte, FCSH, Universidade NOVA de Lisboa, através do seu grupo Museum Studies a qual trará ao projecto um acréscimo significativo da exploração que o tema (e subtemas associados) permitem nas áreas da museologia, design (museografia), história, história de arte, conservação, entre outras.
O meu, nosso, contributo para o projecto relaciona-se com a estrutura de dados, os procedimentos e terminologia utilizados para a documentação das exposições no actual sistema de gestão de colecções que a fundação utiliza para gerir ambas as colecções (Moderna e do Fundador). Poderá parecer uma coisa de menor importância, e certamente é, se tivermos em conta a quantidade de trabalho envolvido na pesquisa da informação sobre as exposições, mas é um trabalho que exige uma reflexão maior do que acontece na documentação das colecções, dada a inexistência de norma que permita guardar a informação da exposição (evento e processo) de forma coerente.
Este é, aliás, o nosso maior desafio neste projecto. Perceber qual a estrutura de informação e os processos associados na geração inicial da informação para permitir guardar e tornar acessível todos os dados reunidos durante o processo de documentação retrospectiva que está a ser conduzido. No caminho, espero, estamos a construir um importante contributo para a definição, ou pelo menos para a discussão, de uma norma que possa servir de suporte a outros projectos e que apresentaremos, em tempo devido, ao grupo de trabalho sobre Documentação de Exposições e Performances do CIDOC.
Recordo, em todo o caso, que estes dados darão origem a um catálogo digital e serão, estou certo disso, reutilizados e actualizados pelos diferentes serviços da fundação após a conclusão deste projecto, por isso a adaptação do sistema de informação terá também em consideração a necessidade de publicação dos resultados da pesquisa.
Foi neste quadro que a fundação me endereçou, através da equipa do projecto, o convite para participar no Encontro Internacional Exposições de arte: arquivo, história e investigação (que contou com os notáveis contributos de Reesa Greenberg, Rémi Parcollet e Isabel Falcão), no passado dia 6, onde apresentei uma comunicação intitulada “Documentação de exposições nos museus: um elo perdido?” procurando explorar o tema através da reunião de alguns contributos e projectos que têm visto a luz do dia sobre esta matéria e de uma reflexão pessoal sobre o actual panorama nos museus sobre a exploração do tema.
Na apresentação, que dará origem a um artigo, destaquei entre outros o projecto, muito conhecido, do MOMA e também um contributo muito interessante do MACBA, no entanto, julgo que há ainda um caminho longo a percorrer na perspectiva da documentação das exposições para as tornar num recurso de gestão e investigação verdadeiramente disponível para museus e investigadores.
Nesse caminho seria muito importante ter diferentes contributos e perspectivas e por isso queria deixar aqui um desafio. Alguém desse lado colabora num projecto deste género? Conhece algum projecto semelhante que possa estar interessado numa discussão mais alargada sobre as necessidades de documentação? Se sim, agradecia imenso que me fizessem chegar essa informação para a partilhar com os colegas que estão a trabalhar no CIDOC sobre este tema.
by armatos | Nov 14, 2017 | Debate, Opinião, Políticas
A velocidade das reacções, nos dias que vivemos, é marcada quase exclusivamente pela necessidade de afirmação da voz própria num mundo de milhões de vozes que a net propicia. É desavisada para alguns, mas ainda assim insistem continuamente no erro mostrando indignação com tudo e mais alguma coisa. O jantar no Panteão, ou melhor, os jantares no Panteão são mais um caso que demonstra a necessidade de uma reflexão mais profunda sobre os temas envolvidos.
Em primeiro lugar, e para que fique bem claro, parece-me completamente desajustado que se possam fazer jantares de qualquer espécie no Panteão (mesmo que a sala específica não tenha restos mortais). É um local de homenagem aos melhores da Nação e deve ser respeitado enquanto tal. Pode até parecer obtusa esta minha opinião, mas a simbologia de locais como este é importante para a nossa cultura e identidade e julgo que isso deveria merecer uma análise mais cuidada sobre a autorização de eventos em locais como aquele.
Uma outra situação que me enerva profundamente é ler, na imensidão de comentários e publicações e posts e twitter, a indignação de uma quantidade considerável de pessoas, a maior parte delas que certamente visita o Panteão diariamente, aliás da mesma forma que vai frequentemente a museus e monumentos, batendo no peito e clamando contra a situação e que raramente vejo a falar sobre os fracos recursos financeiros que as instituições na área da cultura têm disponíveis e que as obrigam a “vender” espaços para a realização de eventos de toda a espécie. Se calhar era bom pensar um pouco mais sobre o assunto antes destes momentos de indignação.

By Carlos Luis M C da Cruz (Own work) [Public domain], via Wikimedia Commons
Aliás, é sobre este último ponto que gostaria de reflectir um pouco. Eu não sou contra, por princípio, que se aluguem espaços em monumentos, palácios, museus e afins. Reconheço que são locais procurados para tal exactamente pela simbologia e pela beleza que encerram e, como tal, ajustam-se ao que o mercado procura em termos de prestígio de determinado evento. No entanto, o rendimento que este tipo de aluguer representa deveria ser, em sentido restrito, uma fonte de receita adicional para que os museus, monumentos, palácios e afins possam ter os meios para concretizar projectos específicos de investigação, educação, acessibilidade, etc. e não, tal como tem acontecido, como suporte ao exíguo orçamento que têm para o seu funcionamento regular, ou seja, para manter as portas abertas. Não me parece que isto seja propriamente “mercantilização da cultura” como também vejo agora apregoado, mas enfim!
Quero com isto dizer que a discussão a ter, que é bem maior, vai de encontro ao mítico 1% de orçamento para a Cultura (que ainda assim me parece curto). Se assumimos a indignidade de ter eventos como este no Panteão, temos que perceber que o problema não está num despacho que não autoriza directamente estes eventos, mas sim que a autorização deles depende (em parte) do valor que eles representam para estas instituições e de uma análise casuística que é da responsabilidade de quem tutela (no caso específico da DGPC e do Ministério da Cultura que não ficam muito bem na fotografia neste caso).
Por último, e para todos os que só se preocuparam com este assunto por razões de arremesso político (de todos os lados), por parecer estar na moda criticar a Web Summit e os eventos paralelos, por não ter mais nada que fazer e razões semelhantes, fica aqui o meu singelo conselho: arrumem uma vidinha!
by armatos | Nov 10, 2017 | Cultura, Discussão, Museus, Opinião
Ora deixa cá ver. Desde que trabalho em/para Museus, já lá vão uns 20 anos, já tivemos IPPC, IPM, IMC e recentemente DGPC. Nas andanças do património cultural é necessário acrescentar o IPPAR, o IGESPAR, o IPA e julgo que um outro para o património subaquático, mas desculpem-me por não recordar o nome. Além destes institutos ainda tivemos, e o utilizar o passado não é engano, a Rede Portuguesa de Museus (RPM) como um organismo do Estado que certificava os museus. No mesmo tempo, para o caso Inglês (e poderei estar enganado, mas por favor corrijam-me) tivemos o Museum, Libraries and Archives Council e temos agora o Arts Council (desde há uns três anos, segundo me recordo).
Não querendo fazer qualquer tipo de comparação com a realidade inglesa, que sei ser bem distante da nossa, a minha questão é a seguinte: quando é que nos decidimos a parar com ideias de reformas administrativas e pensamos seriamente numa política e estratégia para o sector público dos museus portugueses?

Ministro da Cultura
A questão é antiga e já foi colocada inúmeras vezes por diversos colegas. Recordo um texto mais recente do Luís Raposo sobre esta questão, mas podem consultar outros que ele escreveu aqui, ou então ler o da Isabel Roque aqui. No entanto, continuamos a ter anúncios como o que fez Luís Filipe Castro Mendes no Parlamento no passado dia 7 em que se anuncia um novo Instituto de Museus e Monumentos (IMM), desmentido, ou pelo menos adiado, pelo próprio nos dias seguintes, conforme noticia Lucinda Canelas no Público de dia 9, que demonstram, na minha opinião, uma navegação à vista que tem que ser criticada pelos profissionais de museus de forma aberta e franca.
A situação nos museus é péssima. Sentimos, desde há alguns anos, a ausência de recursos humanos e financeiros que possam colocar os museus nos mínimos aceitáveis para um país que se diz e quer evoluído. Mantemos um projecto importante como a RPM num estado vegetativo que não se compreende. Andamos a promover o nosso património e os museus como elementos chave para a promoção turística do país, mas na realidade não temos tratado uns e outros como activos importantes para aquele sector (e este ano, apesar do aumento orçamental, continuamos a arranjar formas de sonegar a realidade). Além disso somos brindados com notícias sobre o espartilhamento da coleção do Museu da Música, que será dividida por dois espaços, um em Lisboa e outro em Mafra, com o fraco argumento de uma suposta descentralização/desconcentração dos espaços culturais (como se entre Lisboa e Mafra se resolvesse a questão da ausência de museus nacionais) e da despesa da deslocação de toda a coleção para Mafra.
Este governo e os partidos que o apoiam tinham como obrigação (ver programa do Governo) tratar bem melhor o sector, mas sinceramente quem é que ainda acredita num programa de governo, não é? É um diz que disse e desdisse em continuidade.
by armatos | Set 19, 2017 | Colecções, Museus, Web 2.0
Por vezes, raras devo dizer, pergunto-me porque raio escolhi trabalhar em museus? A Cultura, todos sabemos, não é um sector fácil. Não é uma actividade que nos permita, pelo menos à maioria, ter rendimentos elevados. Exige estudo, contínua actualização, horas de volta de documentos em arquivos ou de objectos em reserva, preocupação e interacção directa com o público, conhecimentos de gestão, de comunicação, etc., mas na realidade todas as vezes que me pergunto sobre o porquê desta escolha a resposta é sempre a mesma: Porque é impossível não gostar de museus! E comigo foi amor à primeira vista!
No entanto, há momentos em que a dúvida nos assalta, não é? Pensamos que estaríamos melhor a vender casas, a trabalhar numa Google, aos comandos de uma grua qualquer, na City londrina preocupados com as consequências do Brexit ou, ainda, a produzir uma belo vinho no Douro. Acho que o mesmo acontece em todas as áreas e é legítimo que assim seja, mas nesses momentos é importante ter guardados alguns links que nos lembrem porque continuamos na luta.
Hoje guardei aqui nos favoritos mais um link que me irá ajudar num desses momentos. É um link com o feed de uma batalha épica entre dois dos museus museus favoritos, o Science Museum e o Natural History Museum de Londres! Uma batalha iniciada com um tweet de durante o evento #askacurator do Natural History Museum sobre quem ganharia uma batalha entre as equipas dos dois museus e como as colecções as ajudariam na contenda. O tweet é o seguinte:
A batalha que se seguiu entre os museus é épica e, pelo menos a mim, lembra-me porque gosto de trabalhar em museus. A batalha, como diz no link que a apresenta, é muito educativa. É feita com as armas (objectos) de cada colecção de forma inspirada e despida da linguagem institucional que ainda vemos utilizada por muitos museus nas redes sociais. Utiliza os objectos mais antigos, mas chega também às mais recentes impressões 3D.
Mostra a diversidade e complexidade de duas grandes colecções e fez-me – acho que isso é o mais interessante – pesquisar um pouco mais para perceber melhor as respostas a alguns dos ataques. É brilhante, não vos parece?
É impossível não gostar de museus, não é?
by armatos | Jul 3, 2017 | Speaker's Corner
Há algum tempo, trabalhando numa organização muito pouco organizada no que à gestão de informação dizia respeito, percebi que existia uma duplicação brutal de dados que resultava da dificuldade que os utilizadores tinham em localizar ficheiros nos discos partilhados na rede. A organização de pastas era de tal forma pessoal e intransmissível que ninguém encontrava nada quando ia à procura. A solução era recorrente: cópia do ficheiro para o sítio “que eu sei” e circulação posterior por correio eletrónico. Não preciso de explicar a confusão gerada na gestão de informação, no desempenho dos sistemas e nos custos associados ao armazenamento de dados (não é por não falarmos neles que eles não existem).
Para facilitar a vida no meu serviço, fiz uma tabela muito simples em que se identificavam os ficheiros pelo nome, descrição sumária do conteúdo e – o mais importante – que continha uma ligação para a localização dos ditos na rede. Não era a revolução necessária para reverter décadas de má prática de gestão documental, mas dava para o gasto e estancava a duplicação de informação e o entupimento do correio eletrónico. Ou melhor, deu, durante uns tempos. Porque há um dia em que começo a receber telefonemas de gente aos gritos “os links não funcionam!”, ocasionalmente acompanhados de outra linguagem técnica que me abstenho de reproduzir.
O que é que tinha acontecido? Um utilizador tinha acrescentado (e, para ajudar à festa, aleatoriamente ou com uma lógica que só ele percebia) um # no início do nome de alguns ficheiros. Foi a minha vez de largar alguma sonora linguagem técnica e, depois do alívio causado, perguntar: “Porquê?” Resposta: “Ah, é que assim quando abro o explorador estes aparecem em cima”.
Durante muito tempo tomei esta história como exemplo de iliteracia digital mas, uns anos passados a pensar sobre gestão de informação, percebo que é exemplo de muito mais que isso. O mundo divide-se entre os que navegam e os que pesquisam.
Dito de uma forma mais concreta, este utilizador esperava recuperar informação através da forma como ela estava armazenada e, consequentemente, lhe era apresentada no ecrã. Enfim, podemos questionar o critério do “em cima = mais importante para mim neste momento por razões que só eu sei”, mas a ideia é essa. Há outra metade do mundo, contudo, que espera recuperar a informação através da forma como ela está descrita e, consequentemente, lhe é apresentada como resposta a uma pergunta.
A tentação de associar os que navegam à tecnologia analógica e os que pesquisam à tecnologia digital é grande, mas a coisa não é assim tão linear. Efetivamente, a forma mais antiga e tradicional de recuperar informação tem a ver com a “arrumação”: se quero um romance português vou encontrá-lo na prateleira da literatura de língua portuguesa, se quero um ofício expedido vou encontrá-lo na pasta das saídas, se quero uma ponta de seta vou encontrá-la no contentor dos materiais líticos. Não repetindo algo que já escrevi aqui, não havia grandes alternativas até há bem pouco tempo e a tecnologia digital é o grande aliado dos motores de busca. Mas o melhor sistema para os que navegam, hoje em dia, é seguramente digital.
A diferença entre navegar ou pesquisar vai para além da tecnologia. É uma questão de conceitos e de expectativas. Se eu prefiro navegar, o sistema de organização da informação é mais importante que a caracterização do objeto de informação. Se eu prefiro pesquisar, a caracterização do objeto de informação é mais importante que o sistema de organização da informação.
O que é que é melhor? Bom, eu sou dos que pesquisam… A história que comecei por contar parece-me mostrar que os sistemas de arrumação (em caixotes ou em cadeias binárias, vai dar igual) são demasiado voláteis para confiarmos neles. E também me fazem confusão as práticas que valorizam mais a forma como se organizam os objetos de informação do que… os próprios objetos de informação. Além de que esse tipo de práticas tendem a resultar em formas de recuperação de informação que são muito eficazes para quem conhece o sistema mas completamente crípticas para quem chega lá vindo de outro sítio.
Contudo, confiar exclusivamente na descrição para que os resultados das pesquisas sejam consequentes também não é um mar de rosas. Se não houver rigor e normalização na terminologia, nos atributos e nos procedimentos usados na descrição, mais vale não descrever nada e investir na arrumação dos objetos no “sítio certo”. Ou então confiar na serendipidade…
A boa notícia é que navegar e pesquisar não são conceitos mutuamente exclusivos. Qualquer página na internet nos prova. No entanto, é fundamental perceber quais são as expectativas dos utilizadores quando se concebe um sistema de informação: não vale a pena investir um tempo imenso no sistema de organização se os utilizadores vão querer fazer perguntas transversais e que cruzam atributos de objetos arrumados em caixotes diferentes. Ou, em alternativa, o tempo gasto na descrição pode ser contraproducente se os utilizadores apenas vão estar preocupados em localizar rapidamente as caixas onde se guarda a informação.
Porque, como tudo na vida, o que interessa é que o sistema seja eficaz para quem o usa. Para a maioria, vá. Que também ainda não se inventou melhor forma de vivermos em conjunto.
Imagem daqui.
Maria José de Almeida
Maria José de Almeida é Doutora em Arqueologia pela Universidade de Lisboa.
Até 2016 trabalhou nos municípios de Santarém e Cascais, desenvolvendo ações de arqueologia preventiva e gestão de coleções de bens arqueológicos. Foi responsável pela implementação do Sistema de Informação dos Museus de Cascais e coordenou a integração do mesmo na plataforma de Sistema de Informação Geográfica da autarquia. Fez parte dos corpos gerentes da Associação Profissional de Arqueólogos (APA) desde 2002, tendo sendo presidente da direção no triénio 2007-2009. É membro do Grupo de Trabalho Sistemas de Informação em Museus da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas (BAD).
Atualmente integra a equipa da Direção de Serviços de Inovação e Administração Eletrónica da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB).
Curriculum detalhado aqui.
by armatos | Jun 30, 2017 | Acesso Cultura, Divulgação, Livros
“Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você”
Nietzsche, Friedrich, Além do Bem e do Mal – Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal – 31. 3ª edição. Editora Escala, 2011.
Li pela primeira vez esta frase de Nietzsche, acreditem ou não, num livro da Marvel chamado “Guerra Infinita” (vai ter direito a filme no próximo ano) publicado há muitos anos atrás e recordo-a sempre que vejo alguém combater um problema, com um outro problema ou criando um problema ainda maior. É, ou melhor tem sido, o que acontece com a migração e os migrantes actualmente. Olhamos de forma indignada para a monstruosidade que causa a migração em massa, mas a inércia que temos face a este problema tem um potencial enorme para nos transformar em monstros. Não me tomem à letra. Eu sei que é uma questão complexa, mas sinceramente não deveríamos fazer mais para resolver isto?
Não se cansem que eu próprio respondo. Devíamos!
E foi isso mesmo que a Acesso Cultura fez com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. Uma publicação intitulada A Inclusão de Migrantes e Refugiados: O Papel das Organizações Culturais que pretende ser uma ferramenta de apoio para que as instituições culturais (museus e não só) possam ter um papel activo no esforço para a inclusão das pessoas que se vêem obrigadas a migrar ou forçadas a procurar asilo fora e longe dos seus países. Um documento que contém entrevistas, recomendações, contactos úteis, referências bibliográficas sobre o tema, etc. que nos ajudam na procura das respostas às questões iniciais: Por onde começar? O que é preciso saber? O que fazer e como?.
À Maria Vlachou vai daqui um enorme obrigado por este excelente trabalho. Obrigado esse que estendo à Ana Carvalho, à Ana Braga e ao Hugo Sousa e a todos os envolvidos neste excelente contributo.
A publicação pode (e deve) ser descarregada aqui (em Português e Inglês).
by armatos | Jun 22, 2017 | Museus
Há muitos, muitos anos, comecei a trabalhar no Museu de Aveiro (num estágio, imaginem lá) no serviço educativo com a amiga Maria João Mota. Na altura não questionava tanto as coisas, mas ajudado pelos colegas, pela Maria João principalmente, dei comigo várias vezes a perguntar-me “O que é um museu para uma criança?” É, talvez, a pergunta que mais nos devia ocupar. Pensar como actuar para que o museu possa contribuir para que os nossos pequenotes questionem tudo o que os rodeia.
Vem este post a propósito de uma ida minha à creche da minha filha mais nova com o objectivo de explicar à turma dela (miúdos dos 4 aos 6) o que raio é que o pai da minha princesa, ou seja eu, faz! Antes de vos contar seja o que for, devo dizer que eu tenho uma dificuldade imensa em explicar exactamente o que faço. Sou trabalhador por conta de outrém, investigador, documentalista, especialista em documentação em museus, etc. e não tenho uma daquelas profissões em que simplesmente dizemos “eu sou tal!” Tenho alguma dificuldade em dizer que sou museológo ou profissional da informação ou analista de sistemas e por isso os meus filhos terão grande dificuldade em preencher os papeís com a profissão do pai. Agora imaginem lá explicar esta enorme confusão à criançada!?
Segui a linha mais fácil. Disse-lhe que trabalhava para museus e tentei, contar-lhes uma história breve, sobre o que são os museus e o que faz a rapaziada que lá trabalha, acabando por usar alguns dos desenhos que eles fizeram previamente e tentar criar uma breve história e exposição com a ajuda deles.
Estou muito curioso por ouvir a minha pequena mais logo, mas devo dizer que me diverti como há muito não acontecia. Desde logo pelas reacções à pergunta “vocês sabem o que é um museu?” que teve respostas muito interessantes (e que nos devem fazer pensar) como “é um sítio onde se guardam coisas valiosas” ou “é um sítio onde não podemos mexer nas coisas porque está tudo muito limpinho”, mas também pela boa surpresa que tive ao ver a maioria a levantar o braço quando lhes perguntei “quem é que já foi a um museu?” Aliás, um dos pequenotes já tinha ido a quase todos os museus que mostrei, desde os Guggenheim em Bilbao e NY, até ao do Côa, passando pelo Museu da Barbie ou pelo Museu do Ar em Sintra (ficam sempre impressionados com os aviões). E quase todos eles reconheceram de forma imediata o Museu Nacional Soares dos Reis (fiquei contente, devo dizer!)

© Smithsonian Institution
Quando passamos à parte do fazemos nos museus eles ficaram bem atentos, mas confesso que não sei se perceberam muito bem a forma que utilizei para lhes explicar. Ri-me à farta quando lhes mostrei uma foto (a que está aí ao lado) das reservas da Smithsonian e me dizem eles “xiii tanta fruta!” e “é uma venda de quê!?” porque à distância não se percebia que se tratava de uma colecção de história natural. Adoraram os senhores restauradores com ar de cientistas e óculos de aumento, ficaram vidrados com a imagem de uma exposição e com as histórias que podiam imaginar dos objectos que ali estavam e no final ficaram confusos, pelo menos pareceu-me, com aquilo que o pai da minha princesa faz na realidade.
Colocar os objectos num computador? Que raio da coisa estranha que este senhor faz? Podia dar-lhe para outra coisa, não era? Sim… podia ser carpinteiro, estofador, bancário, juíz, etc.! Podia, mas não era a mesma coisa! E certamente não seria tão feliz.
Acabei a dizer-lhes, como me disseram um dia a mim, para se divertirem nos museus. Que os utilizem para conhecer o mundo a fazer perguntas! Espero que o possam fazer e que nós os ajudemos com tudo aquilo que estiver ao nosso alcance.
Um museu para uma criança, para todos nós, devia ser um lugar de conhecimento, de diversão, de perguntas, de histórias, de factos, devia ser como uma segunda casa, aberto e participativo. É um desafio grande, mas quem é que pensa em desistir?
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